Sopa da Pedra, Vento Quente & Três Vespas Pelo Caminho

Notas de um fim-de-semana que se recusou a correr como previsto

Ao quilómetro trinta, já quase tínhamos sido empurrados para fora da estrada por camiões, sofrido a primeira avaria mecânica, abandonado os planos cuidadosamente preparados para um piquenique e mandado um dos membros do grupo para o hospital.

Visto agora à distância, talvez devesse ter sido evidente que o fim-de-semana iria ficar na memória.

À partida, a ideia parecia suficientemente idílica: uma viagem de Vespa pelo Alentejo. Estradas secundárias, paisagem, boa comida, boa companhia e aquele tipo de liberdade que só parece existir quando adultos temporariamente se esquecem, por breves instantes, das responsabilidades que ficaram à espera em casa.

A viagem tinha como pretexto a entrada do Bernardo nos quarenta, ainda a poucos dias de distância, mas já suficientemente merecedora de celebração. E isso acabou por dar a tudo um sabor diferente. Menos uma viagem de motas e mais um daqueles raros fins-de-semana em que as pessoas realmente aparecem umas para as outras, amizades antigas, amizades mais recentes, casais que aos poucos se tornam parte do mobiliário affectivo das nossas vidas e aquele tipo de grupo que, sem ninguém dar muito por isso, lentamente começa a parecer-se com família.

A realidade, no entanto, tinha outros planos.


A primeira etapa levar-nos-ia de Alcácer do Sal até Cercal, começando com aquilo que só pode ser descrito como um exercício moderado de sobrevivência na nacional até Grândola. Quem anda de mota em Portugal conhece bem a sensação: camiões colados atrás de nós, automobilistas impacientes a ultrapassar como se dois segundos de atraso representassem uma tragédia pessoal e aquela percepção muito real de que, para muita gente, motas continuam a ser tratadas mais como obstáculos do que propriamente veículos.

À frente seguia o Bernardo, liderando a caravana com o ar de um capitão de expedição ligeiramente stressado, sempre de olhos nos espelhos, constantemente a confirmar se ninguém tinha desaparecido numa vala ou ficado transformado em decoração involuntária da berma da estrada.


Sentia-se a preocupação dele. Havia qualquer coisa de paternal, responsável e provavelmente exaustiva naquela missão silenciosa de garantir que chegávamos todos inteiros.


Tínhamos planeado parar a meio caminho para um piquenique num local escolhido pelo Bernardo, um daqueles momentos de viagem que parecem perfeitos na teoria: sombra, paisagem e uma mesa improvisada algures no meio do nada, daquelas paisagens que parecem escolhidas de propósito.


O piquenique propriamente dito tinha sido preparado pela Maria, que, como o fim-de-semana viria repetidamente a confirmar, possui aquele raro talento de organizar tudo sem nunca parecer que está a organizar nada.


Mas primeiro tínhamos de sobreviver à nacional.


Assim que deixámos o caos do trânsito para trás e começámos a entrar nas curvas e colinas do interior, o ambiente relaxou. A paisagem começou finalmente a respirar, a tensão começou a dissipar-se e, finalmente, parecia que a aventura estava realmente a começar.


O que, naturalmente, foi exactamente o momento em que surgiu a primeira avaria.


Pouco mais de trinta quilómetros depois do início da viagem, a Vespa do Portelinha, uma teimosamente bela 150cc de outros tempos, decidiu começar a dar problemas de caixa suficientes para tornar irrealista continuar.


Em boa verdade, só o facto de ter sobrevivido à nacional até Grândola já parecia uma pequena vitória.


Pela primeira vez naquele dia, a caravana parou.


O Bernardo entrou imediatamente em modo organização.


O plano tornou-se claro rapidamente: meter a Vespa na carrinha de apoio, regressar a Alcácer, guardar a mota, ir buscar uma substituta mais moderna e fiável e, de alguma forma, ainda salvar o dia antes de a viagem ter verdadeiramente começado.


E assim, enquanto o Bernardo desaparecia numa missão logística inesperadamente complexa para alguém que, supostamente, deveria estar apenas a aproveitar um fim-de-semana de celebração, o resto do grupo ficou à espera.


Foi assim que encontrámos o bar.


Embora chamar-lhe “bar” talvez seja simplificar demasiado.

Parecia mais um sítio esquecido pelo tempo.

Completamente vazio. Sem movimento. Sem sinais de vida. Daqueles estabelecimentos que assumimos terem fechado em 1987 e simplesmente se esqueceram de avisar alguém.

E, no entanto, estava aberto.


Lá dentro estava um senhor já de idade, antigo talvez seja a palavra certa, impossivelmente simpático, acolhedor e genuinamente caloroso, como se receber um grupo aleatório de vespistas perdidos fosse apenas mais uma terça-feira.

Vieram cervejas.

As conversas abrandaram.


O tempo pareceu suspender-se um pouco.


Entretanto, o Bernardo regressou.


O Portelinha tinha mota nova.


A moral subiu.

O optimismo voltou discretamente.


Parecia, finalmente, que a viagem podia começar a sério.


Convém também mencionar que esta era a primeira experiência do Gil em cima de uma mota.


Não primeira viagem longa.


Não primeira viagem de Vespa.

Primeira experiência de mota, ponto.

O que significava que, com um optimismo admirável e uma confiança talvez ligeiramente desproporcional à experiência, tinha decidido embarcar numa aventura de cerca de 350 quilómetros de Vespa pelo Alentejo.

Na altura, de alguma forma, pareceu perfeitamente razoável.


Aquele tipo de decisão que, no entusiasmo de uma viagem entre amigos e nas melhores intenções do mundo, ninguém questiona tanto quanto talvez devesse.


Afinal, a ideia era precisamente que todos fizessem parte da aventura.


Em retrospectiva, claro, a realidade costuma chegar com mais clareza do que o optimismo.

Foi exactamente nessa altura que o Gil caiu.

Felizmente, nada de grave aconteceu. Algumas escoriações, uma Vespa danificada, nervos abalados e uma ida inesperada ao hospital. Daquele tipo de situações que mais tarde se transformam em histórias precisamente porque, felizmente, não foram piores.

Naquele momento, no entanto, significou improvisar.

O piquenique cuidadosamente preparado transformou-se subitamente em sustento hospitalar para quem acompanhou o Gil, enquanto o resto do grupo acabou dividido: uns seguiram para o hospital, outros começaram à procura de um sítio onde reagrupar e almoçar enquanto esperávamos notícias.


Eventualmente, alguém encontrou o Solar dos Leitões, um pequeno desvio algures entre Alcácer e Cercal. Chegámos vergonhosamente perto da hora de fecho da cozinha, já à espera de ouvir um “já não servimos”, mas o Alentejo voltou a fazer aquilo que tão bem sabe fazer: receber.

Leitão não havia nesse dia, ironicamente, considerando o nome, mas receberam-nos na mesma e serviram aquilo que acabaria por ser uma das refeições mais reconfortantes da viagem: uma sopa da pedra memorável, seguida de uma generosa mistura de carnes grelhadas.

Era exactamente aquilo de que precisávamos.


Comida quente.


Bebidas frescas.


Algum alívio.

Nessa altura, o stress da manhã já começava lentamente a transformar-se em histórias.


De volta à estrada, surgiu a próxima rebelião mecânica: um problema no cabo do acelerador que inicialmente parecia uma questão de cinco minutos.


Como estas coisas normalmente acontecem, cinco minutos rapidamente se transformaram em bastante mais.


O que se seguiu foi daqueles momentos pequenos que acabam por definir uma viagem muito mais do que qualquer monumento: engenharia improvisada, soluções criativas, conversas de beira de estrada e cervejas a aparecerem quase por magia enquanto vários homens olhavam para uma Vespa antiga fingindo compreender profundamente mecânica.


Solução temporária encontrada.


Boa o suficiente para o resto da viagem.


Ou assim pensávamos.


Ao final do dia chegámos a Cercal e instalámo-nos num hotel algo peculiar, confortável, acolhedor e ligeiramente estranho da melhor maneira possível.


Mas, sendo honesto, Cercal acabou por ficar na memória por outra razão:


A Taberna do Batata Doce.

Ou melhor:


O Senhor Batata Doce.

Parte II

Calor, Canja de Garoupa e Dezasseis Garrafas de Monte da Peceguina

Na manhã seguinte, o despertar aconteceu sem grande pressa.

Cada um foi acordando ao seu ritmo.

Cercal ia-se mexendo devagar.

Eu aproveitei para dar uma volta pela vila e acabei por comprar uma camisa nova depois de descobrir que a única que tinha levado para o fim-de-semana tinha rasgado.

Continuo irracionalmente satisfeito com essa compra.

Barata, inesperada e exactamente o tipo de camisa que se compra numa terra pequena sem pensar muito no assunto e que, estranhamente, acaba por parecer uma excelente ideia.

De volta ao hotel, começaram os preparativos para a segunda etapa.

O dia prometia calor.

Ainda ninguém imaginava quanto.

A estrada até Aljustrel acabou por correr surpreendentemente bem.

Sem quedas.

Sem avarias.

Sem necessidade de improvisar nada.

Ao ponto de começarem as inevitáveis piadas:

“Hoje isto está uma seca comparado com ontem.”

Aquela espécie de frase que nunca se deve dizer em voz alta numa viagem de mota.

O calor, no entanto, era brutal.

Nem sequer era um calor normal.

Era daquele calor que parece sair do chão.

O vento não ajudava.

Pelo contrário.

Vinha quente.

Como se estivéssemos a levar com um secador industrial directamente na tromba durante horas seguidas.

Foi também nestes quilómetros que uma pequena história paralela começou a desenhar-se.

A Margarida tinha inicialmente dito que não queria ir à pendura. Ou, pelo menos, que a ideia não lhe inspirava grande confiança.

Mas as circunstâncias do primeiro dia acabaram por decidir por ela.

Entre a avaria da mota do Portelinha, o regresso inesperado do Bernardo a Alcácer para trocar de Vespa e a ida ao hospital depois da queda do Gil, a logística da carrinha começou rapidamente a deixar de ser exactamente aquilo que estava planeado.

E foi assim que a Margarida acabou na pendura do Luís.

Para mérito dela, alinhou sem dramas.

Segundo a própria, os primeiros quilómetros foram feitos praticamente de olhos fechados.

Mas ao segundo dia já havia curiosidade.

Depois entusiasmo.

Ao ponto de, antes do fim da viagem, já se falar na hipótese de comprar uma mota cá por Alcácer.

A viagem parecia ter esse efeito nas pessoas.

À hora de almoço chegámos finalmente a Aljustrel e parámos no Cabecinha.

Uma marisqueira em pleno Alentejo interior.

O tipo de sítio que, à partida, parece não fazer sentido nenhum até nos sentarmos à mesa e imediatamente deixar de parecer estranho.

Foi lá que apareceu a Canja de Garoupa.

E aqui convém contextualizar uma coisa.

Vínhamos há horas a conduzir dentro de um calor absurdo.

Daqueles dias em que até o vento parecia vir quente.

A sensação era mais próxima de atravessar um forno do que propriamente o Alentejo.

E, no entanto, aquilo que mais nos soube naquele momento foi precisamente um prato quente.

Uma Canja de Garoupa.

Vista de fora, parece uma decisão completamente absurda.

Ali, naquele momento, parecia exactamente a coisa certa.

E a verdade é que estava espectacular.

O almoço foi realmente bom.

E algures entre quilómetros, calor e estradas vazias, dei por mim a pensar numa coisa.

Hoje damos demasiada importância ao destino.

À la chegada.

À rapidez.

À eficiência.

Auto-estradas.

Chegar depressa.

Seguir caminho.

E talvez, no meio disso tudo, tenhamos desaprendido a atravessar um país.

A vê-lo.

Mesmo vê-lo.

Porque as estradas por onde passámos naquele fim-de-semana não tinham nada de extraordinário.

Eram simplesmente nossas.

Campos secos.

Estradas esquecidas.

Pequenas aldeias.

Paisagens que sempre estiveram ali.

E às quais raramente prestamos atenção.

Finalmente chegámos a Beja.

Uma cidade onde, tecnicamente, já tinha estado várias vezes, mas da qual, honestamente, pouco ou nada me lembrava.

Desta vez foi diferente.

O grupo dividiu-se entre duas guest houses.

Os casais foram naturalmente parar à Aljana Guest House.

Um daqueles sítios onde se percebia que alguém tinha pensado nos detalhes.

Tudo parecia fazer sentido.

Moderno sem exageros.

Rústico sem esforço.

E rapidamente passou a ser conhecida como a opção romântica do grupo.

Já eu e o Thiago — os solteiros de serviço — acabámos instalados na Maria’s Guest House.

Uma casa de família transformada em alojamento.

Simples.

Sem pretensões.

O dono apresentou-nos logo a filha, o cão e a mulher — presumivelmente a Maria — enquanto nos mostrava quartos claramente preparados com cuidado e não apenas montados para receber hóspedes.

Há diferença.

E sente-se.

Mais tarde juntámo-nos todos na piscina da outra guest house para umas cervejas antes do jantar.

Um ritual necessário.

Até porque o jantar acabaria por ser uma das grandes surpresas da viagem.

O restaurante mal parecia um restaurante.

Uma antiga garagem transformada numa sala de jantar pequena, com um piano, algumas guitarras e uma decoração difícil de explicar.

Muito artística.

Muito própria.

Uma mistura meio improvável entre música, vinho, comida, arte popular e aquele lado ligeiramente excêntrico que alguns sítios conseguem ter sem parecer que estão a fazer esforço.

Ao que percebemos, aquilo nem sequer funciona todos os dias.

Mais do que um restaurante, parecia uma coisa que simplesmente acontece de vez em quando.

O Jorge andava de um lado para o outro entre pratos, vinho e conversa, fazendo praticamente tudo sozinho sem nunca parecer minimamente stressado.

Só mais tarde — sobretudo através do Bernardo e da Maria, que já conheciam o sítio — percebi que fazia parte dos Virgem Suta.

O jantar estava combinado à partida.

Menu fixo.

Preço fixo.

Tudo simples.

Ou assim pensávamos.

Numa mesa central estavam sentados vários jovens da terra.

E, de repente, um deles começou a cantar.

Sem aviso.

Sem se levantar.

Sem espectáculo.

Simplesmente começou.

Sentado.

Com uma voz tão segura e tão forte que a sala inteira começou lentamente a olhar à volta, tentando perceber de onde vinha aquilo.

Primeiro houve estranheza.

Depois reconhecimento.

E depois silêncio.

A sala inteira ficou presa ao momento.

Um a um, outros naquela mesa começaram também a cantar — sempre sentados — canções tradicionais, fado e músicas conhecidas.

Tudo muito natural.

Sem pose.

Sem palco.

Sem formalidades.

Só pessoas a cantar.

Tenho de admitir: música portuguesa nunca foi muito a minha praia.

Ou pelo menos sempre achei que não fosse.

Mas há momentos que passam um bocado ao lado das nossas ideias feitas.

E aquilo parecia verdadeiro.

Daqueles momentos que, se alguém tentasse planear, provavelmente não funcionavam.

E depois chegou aquele que, para mim, acabou por ser o ponto alto da noite.

A certa altura, o Jorge pegou numa guitarra e, com aquela insistência leve de quem já conhece a resposta, convenceu a mulher a juntar-se a ele.

Ela claramente não era pessoa de palco.

Via-se algum desconforto.

Mas alinhou.

Com alguma hesitação, acabou por cantar com ele uma canção escrita pelo próprio Jorge, dedicada precisamente a ela.

E sem grande aviso, aquilo acertou em cheio.

Não porque fosse perfeito.

Ou particularmente ensaiado.

Mas porque parecia verdadeiro.

Mesmo para alguém como eu — pouco dado à música portuguesa — aquela canção deixou-me completamente rendido.

Entretanto, discretamente, outra pequena história desenrolava-se em paralelo.

A certa altura, o Gil desapareceu e regressou com uma garrafa de vinho pedida fora do menu.

Perfeitamente razoável.

O João reparou imediatamente.

Não porque estivesse curioso.

Sabia perfeitamente o que era aquele vinho.

Pediu um copo.

Gostou, como já sabia que iria gostar.

E a partir daí o Monte da Peceguina começou silenciosamente a tomar conta da mesa.

Veio mais uma garrafa.

Depois duas.

Depois mais algumas.

Até ao ponto em que, sem grande cerimónia nem muita gente realmente a reparar, começaram simplesmente a aparecer garrafas em cima da mesa.

A parte mais engraçada?

Eu mal reparei.

Via vinho a aparecer.

Gente a rir.

Conversas cruzadas.

Mais vinho.

E sinceramente não fazia ideia do que estava realmente a acontecer.

Só na manhã seguinte é que percebi a dimensão da coisa.

Aquilo que tinha começado inocentemente acabou em cerca de dezasseis garrafas de Monte da Peceguina.

Uma façanha que ninguém parecia ter planeado.

Mas à qual, aparentemente, toda a gente aderiu com entusiasmo.

E, naturalmente, a culpa ficou a ser do Gil.

Mais numa lógica de bode expiatório carinhoso do que propriamente culpado — sobretudo porque tinha sido ele a aparecer com a primeira garrafa.

A partir daí ficou fácil.

Sempre que alguém falava do vinho, a culpa era do Gil.

E o mais engraçado é que ninguém parecia minimamente incomodado com isso.

Nem ele.

Nem a Mariana, cuja capacidade para manter toda a gente entretida raramente deixava muito espaço para silêncios.





Parte III

Uma Ganza, Duas Vespas na Carrinha e o Regresso a Casa

Já bastante dentro da noite, muito depois do jantar ter oficialmente terminado, restávamos apenas alguns à mesa.

A conversa tinha abrandado.

As canções iam surgindo aqui e ali.

O Jorge, de vez em quando, enrolava uma ganza para si.

Ora, este não é propriamente um grupo conhecido por grandes aventuras desse género.

Bem pelo contrário.

O que acabou por tornar o momento ainda mais cómico.

A certa altura, o Thiago — claramente entretido e já completamente rendido ao ambiente da noite — decide pegar na ganza e dar umas passas com a confiança desproporcional de quem claramente está a sobrestimar experiência e resistência.

Confiança.

Convicção.

Algum entusiasmo a mais.

O arrependimento chegou pouco depois.

Depois, e talvez ainda mais engraçado, a Maria critica imediatamente a técnica do Thiago, tira-lhe a ganza da mão e decide mostrar como se fazia.

Ou, pelo menos, como achava que se fazia.

Entretanto, no espírito geral da noite e já naquela lógica de “enfim, por que não?”, também acabei por alinhar e dar uma ou duas passas.

Muito racionalmente — ou assim me parecia na altura — porque tinha cometido o erro pouco habitual de beber café ao jantar e, por alguma razão, achei que talvez uma coisa anulasse a outra.

A lógica, nessa altura, já tinha claramente abandonado a mesa.

Eventualmente, o sono ganhou.

As gargalhadas foram levando-nos de volta para casa.

A manhã seguinte apareceu acompanhada de um pequeno detalhe que merece ser mencionado.

O pequeno-almoço da Aljana Guest House.

Tal como o resto do espaço, percebia-se que tinha sido pensado.

Nada exagerado.

Nada ostensivo.

Mas tudo com cuidado.

Tudo bem apresentado.

Daqueles pequenos-almoços onde se percebe rapidamente que alguém se preocupou genuinamente com a experiência e não apenas em pôr comida numa mesa.

Mesmo para alguém que normalmente nem toma pequeno-almoço, tornou-se difícil não abusar um bocadinho.

A última etapa levar-nos-ia de Beja até Alcácer do Sal.

Por esta altura, a minha Vespa T5 já começava a dar alguns sinais de cansaço.

Ainda tentámos resolver a questão mudando as velas antes de sair de Beja.

O optimismo mecânico, aprendi entretanto, costuma ser enternecedor.

E normalmente inútil.

O problema manteve-se.

Até que, algures pelo caminho, a velha senhora decidiu simplesmente que tinha chegado ao limite.

Sem drama.

Sem espectáculo.

Só o suficiente para dizer:

“Acho que por hoje chega.”

Ainda conseguimos chegar a Vila Nova da Baronia, onde parámos para almoçar no Camões.

Mas os últimos metros até ao restaurante já foram feitos a empurrar a Vespa.

Uns quinhentos metros.

Talvez um pouco menos.

Talvez um pouco mais.

Suficientes para parecerem bastantes quando se está de capacete, debaixo de calor alentejano e já ligeiramente cansado de negociar com uma mota antiga.

Não foi exatamente o final cinematográfico que eu teria imaginado.

Felizmente, o almoço ajudou.

E, como tantas vezes acontece à volta de comida e pequenos azares, começaram rapidamente a surgir soluções.

Ali mesmo, ao almoço, decidiu-se o plano para o resto da viagem.

Tirar as malas todas da carrinha.

Meter lá dentro as duas Vespas feridas de guerra — a do Gil, ainda a recuperar da queda do primeiro dia, e agora a minha.

E seguir caminho para Alcácer um pouco à frente do grupo.

A ideia era simples: chegar primeiro, descarregar tudo, deixar a carrinha pronta e disponível caso mais alguma mota decidisse desistir pelo caminho.

Felizmente, tal não aconteceu.

Eu próprio acabei por regressar na carrinha com a Mariana e o Gil.

E foi algures no caminho, em conversa, que percebi que a Maria e a Mariana tinham andado a preparar qualquer coisa para receber o Bernardo quando chegássemos.

Nada de muito elaborado.

Só uma surpresa simples para fechar o fim-de-semana e celebrar os quarenta como deve ser.

Quando finalmente chegámos a Alcácer, lá estava tudo montado.

Comida.

Bebidas.

Ostras.

Uma mesa preparada como se ninguém tivesse passado os últimos três dias praticamente a comer e a beber sem interrupção.

Mas talvez a maior surpresa tenha sido outra.

O Bêpê estava lá.

Em boa verdade, não estava nada à espera de o ver.

Uma semana antes tinha sido atropelado de mota por um carro.

Tinha ficado bastante maltratado e, honestamente, achei que iria passar umas boas semanas em casa a recuperar.

Mas lá estava ele.

De cadeira de rodas.

Ainda claramente longe dos melhores dias.

Mas bem disposto.

E pronto para receber o grupo.

O momento ganhou imediatamente um lado involuntariamente cómico.

Sobretudo quando vimos o Gil, ainda meio embrulhado em ligaduras e pontos depois da queda do primeiro dia, praticamente a dar conselhos ao Bêpê na cadeira de rodas.

O acidentado recente a falar com o acidentado veterano.

Como se, de repente, tivesse adquirido autoridade no assunto.

Ainda assim, havia qualquer coisa muito certa naquele final.

Nada heroico.

Nada triunfal.

Só todos juntos.

A celebrar os quarenta do Bernardo.

Depois de avarias.

Improvisos.

Estradas secundárias.

Calor.

Demasiada comida.

Demasiado vinho.

E histórias suficientes para garantir que este fim-de-semana vai continuar a ser contado durante bastante tempo.

E algures pelo meio de tudo isto, sem grande intenção, acabei transformado numa pequena piada recorrente do grupo.

Em todas as paragens.

Todos os almoços.

Todas as cervejas.

Eu insistia em pedir uma Água das Pedras.

Depois uma cerveja.

E antes de pedir outra cerveja, muitas vezes lá vinha mais uma Água das Pedras.

Na minha cabeça, era uma tentativa perfeitamente razoável de manter alguma ilusão de equilíbrio saudável no meio de um fim-de-semana construído quase exclusivamente à volta de excessos gastronómicos.

Rapidamente, a Água das Pedras passou a fazer parte da personagem.

A minha bebida de assinatura.

Fonte inesgotável de piadas.

O que, olhando agora para trás, talvez fosse inteiramente merecido.

Daqui a uns anos, suspeito que os quilómetros pouco importem.

O que vai ficar são as histórias.

A Vespa do Portelinha a desistir quase antes da viagem começar.

A queda do Gil na estreia absoluta em motas.

O piquenique transformado em sustento hospitalar.

O velhote do café.

A sopa da pedra.

O Senhor Batata Doce.

O calor.

As canções em Beja.

O Monte da Peceguina a instalar-se discretamente na mesa.

A breve experiência espiritual do Thiago.

A Margarida a descobrir que afinal gostava de motas.

O Bêpê na cadeira de rodas a receber-nos em festa.

E, inexplicavelmente, a minha teimosia com Água das Pedras.

Nada correu como estava previsto.

E, olhando agora para trás, talvez tenha sido exactamente isso que fez tudo valer a pena.

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Part II - When Alcácer Went Dark