A Reconstrução Silenciosa

Há um tipo de silêncio que só chega depois de uma tempestade.

Não o silêncio tranquilo — o outro, o pesado. Aquele que se instala quando o ruído desaparece e tudo o que fica és tu, os teus pensamentos, e a pergunta: e agora?

Lembro-me de uma manhã em que acordei e a casa estava, estranhamente, calma. Vocês já tinham saído para a escola. O café estava quente, e a luz entrava devagar pela cozinha, com aquela timidez que as manhãs têm quando a vida parece incerta. Fiquei ali parado por um momento e percebi — é aqui que tudo recomeça.

Não com grandes planos nem anúncios, mas com uma decisão silenciosa: continuar em frente, mesmo quando ninguém está a ver.

Vão ouvir muita gente falar sobre “recomeçar” como se fosse uma grande aventura. Não é. É feito de gestos pequenos e invisíveis, que nunca aparecem nos filmes nem nos discursos inspiradores. É fazer a máquina da roupa quando tudo o que queres é ficar na cama. É responder a mais um e-mail quando a cabeça está noutro lugar. É estar presente para quem ainda precisa de ti, mesmo quando te sentes apenas metade de quem eras.

E, aos poucos, algo começa a mudar. Começas a reparar em pequenos sinais de que a vida ainda não desistiu de ti — uma conversa que te faz rir, um pôr do sol que parece pintado só para te lembrar que ainda estás aqui, uma manhã em que olhas ao espelho e pensas: talvez esteja a caminho.

Ninguém aplaude estes momentos. Não há palmas por fazer jantar sozinho, por pagar contas a tempo, por não desabar no supermercado. Mas são estas pequenas vitórias que, devagar, te voltam a juntar.

A dor não vem para nos destruir; vem para esticar o que ainda é frágil dentro de nós, para que um dia possamos suportar o peso do que nos espera. Cada perda, cada traição, cada dúvida que nos atravessa pode ser um cinzel a moldar algo mais forte — mesmo que ainda não consigamos ver.

Não crescemos no conforto; crescemos no caos. A mesma pressão que parece querer quebrar-nos pode ser a que nos molda.

Ainda estou a aprender isto. Ainda estou a lutar com isto. Uns dias consigo, outros nem por isso. Mas há uma coisa que sei com certeza — ficar parado não leva a lado nenhum. Por isso lutamos. Avançamos. Confiamos que, algures no meio de tudo, a reconstrução está a acontecer, mesmo que ainda não se veja.

Se algum dia se encontrarem de joelhos — e provavelmente vão, porque faz parte de viver — lembrem-se: não é o fim; é o recomeço.
A maioria desiste quando dói. Mas os corajosos — aqueles que aprendem a atravessar o fogo — saem diferentes. Não intactos, mas transformados. Levam luz onde antes havia dor.

E se esse dia chegar para vocês, não tenham pressa. A cura não tem calendário. A reconstrução não tem plateia. Façam apenas uma coisa honesta todos os dias, algo que vos aproxime um pouco mais de quem são. Um dia, talvez anos depois, vão olhar à volta e perceber que construíram algo novo — não uma réplica do que perderam, mas algo mais silencioso, mais verdadeiro. Uma vida que vos assenta.

Não posso dizer que já cheguei lá. Mas estou a caminho.
E cada pequeno passo que dou é uma mensagem para vocês — que, mesmo quando tudo muda, mesmo quando parece impossível, há sempre uma forma de começar outra vez.


Pai

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