Antes do Ano Virar

Há um tipo particular de quietude mesmo antes de um ano terminar.

Não é propriamente silêncio — é mais uma pausa.

O ruído não pára, o mundo não abranda, mas há um instante em que fingimos que talvez abrande. Ficamos quietos o suficiente para olhar para trás, não porque tudo esteja claro, mas porque a própria viragem convida à pergunta.

Escrevo a partir desse lugar.

Vocês vão provavelmente lembrar-se desta noite de outra forma. Ou talvez não se lembrem de todo. Está tudo bem. O que me importa é que, antes do ano virar, tentei pôr algumas coisas em ordem — não no papel, mas na cabeça — para que, quando as perguntas surgirem mais tarde, eu não esteja a respondê-las pela primeira vez.

Este ano não chegou com fogo-de-artifício. Chegou com trabalho. Com rotinas que tiveram de ser reconstruídas, por vezes desde o início. Com dias em que estar presente foi mais importante do que fazer bem. Voltei a perceber que reconstruir raramente é dramático. É repetitivo. É silencioso. Exige paciência quando a paciência parece um luxo.


Houve momentos em que errei. Não de formas que deem boas histórias, mas em coisas pequenas e práticas. Avaliar mal o tempo. Sobre-estimar a energia. Achar que o esforço bastava, quando o que era preciso era atenção. Daquela que não anda sempre a correr para a coisa seguinte.

O trabalho manteve-me com os pés assentes na terra. Não como fuga, mas como um lugar onde a relação entre causa e efeito ainda faz sentido. Faz-se algo, vê-se o que acontece. Ajusta-se. Essa lógica não resolve tudo, mas é reconfortante saber que ainda existe algures.

Quando olhei para fora este ano, o mundo não facilitou as explicações.

Houve guerras que não terminaram quando as pessoas se cansaram de ouvir falar delas. Demasiadas imagens de lugares reduzidos a escombros, de vidas interrompidas de formas que nenhuma frase consegue carregar como deve ser. Houve tentativas de paz que pareceram frágeis, provisórias, como uma mão pousada numa porta que pode voltar a abrir-se a qualquer momento.

Ao mesmo tempo, tudo acelerou. Novas ferramentas, novas máquinas, novas promessas sobre o que a tecnologia pode vir a resolver — ou a estragar — a seguir. A inteligência artificial passou a fazer parte das conversas do dia-a-dia, muitas vezes falada com mais certeza do que compreensão. A cultura tornou-se mais ruidosa, mais rápida, menos paciente com a nuance. Toda a gente parecia muito segura de si, muito convencida de que tinha razão.

Explicar isto a vocês é difícil. Não porque não fossem capazes de entender, mas porque a honestidade importa mais do que ter uma resposta. Não quero ensinar-vos o que pensar sobre o mundo. Quero mostrar-vos como permanecer curiosos dentro dele. Como sustentar a incerteza sem a transformar em medo. Como cuidar sem ficar anestesiado.

Este ano, tentei ensinar algumas coisas. Algumas resultaram. Outras não.

Tentei ensinar o valor do esforço e aprendi que o descanso merece o mesmo respeito. Tentei ensinar resiliência e fui lembrado de que pedir ajuda faz parte dela. Tentei dar o exemplo da certeza e acabei por aprender que dizer “não sei” é, muitas vezes, o lugar mais honesto onde se pode estar.

Grande parte do que aprendi, aprendi convosco. Em viagens de carro. Em perguntas lançadas ao acaso. Em momentos em que a vossa curiosidade me apanhou desprevenido e me obrigou a abrandar as respostas. Vocês têm esse efeito — o de despir as coisas do excesso e levá-las ao que realmente importa, sem intenção nenhuma.


Se há algo que gostava que levassem deste ano, não é otimismo. O mundo nem sempre o merece.

É atenção.

Às pessoas. Aos detalhes. Às próprias dúvidas.

É curiosidade, mesmo quando as respostas são desconfortáveis ou incompletas.



E é decência — não a ruidosa, não a performativa, mas o hábito silencioso de tratar os outros como reais, complexos e dignos de cuidado.

O ano vai virar, estejamos prontos ou não. Essa parte não está nas nossas mãos. O que podemos escolher é como entramos no que vier a seguir. Um pouco mais devagar. Um pouco mais despertos. Um pouco mais honestos em relação ao que não sabemos.

Por hoje, chega.

Vocês vão ler isto um dia, ou talvez não. Seja como for, antes do ano virar, era isto que queria dizer.



Pai

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