Parte II - Quando Alcácer ficou às escuras

Dei meia-volta, virei costas ao meu prédio e continuei a caminhar em direcção ao Social.


A minha pequena missão pessoal tinha chegado ao fim. A ideia de que ainda poderia entrar em casa, agarrar o essencial e voltar a sair caiu por terra no exacto momento em que vi a rua. A água não tinha descido. Tinha subido ainda mais. E continuava a subir.


O que me marcou a seguir foi o ambiente.

Ao longo do dia, mesmo com a inquietação a crescer, ainda havia espaço para a incredulidade. Para meios sorrisos. Para aquele humor nervoso a que as pessoas se agarram quando alguma coisa ainda parece temporária, ou pelo menos controlável. Isso tinha desaparecido por completo. À medida que atravessava as ruas mais altas em direcção aos meus amigos, percebia-se que a vila tinha mudado de tom. Os rostos estavam sérios. As pessoas andavam depressa, carregavam coisas, chamavam umas pelas outras, corriam para trás e para a frente, freneticamente. Já ninguém se ria.

A chuva persistia.

Assim como a água do rio persistia em subir.

Quando cheguei ao pé dos outros, a marginal já estava completamente submersa. Já ninguém conseguia ver, muito menos aproximar-se, das portas da frente dos edifícios virados ao rio. Toda aquela linha de casas e negócios tinha ficado isolada, como se a vila tivesse sido redesenhada em silêncio enquanto nós ainda tentávamos perceber o que estava a acontecer.


Toda a gente se concentrava na rua principal, logo acima da rotunda central da baixa de Alcácer, a olhar. As cheias em Alcácer não eram novidade, mas isto era outra coisa. O nível da água já tinha ultrapassado tudo o que ali alguém alguma vez tinha visto. E era isso, mais do que tudo, que dava ao momento aquela estranheza. Ainda havia, por um breve instante, esse espanto atónito que surge quando o que está a acontecer diante dos nossos olhos excede aquilo que julgávamos possível. Ainda olhávamos com essa parte da cabeça que resiste: por um lado observadora, por outro em total negação.


Mas essa sensação não durou muito.

Casas, restaurantes, farmácias, negócios — todos os lugares que viviam daquela frente ribeirinha, da beleza do Sado e da luz que ali cai ao fim da tarde — estavam agora debaixo de água.


A mudança emocional foi brutal na sua simplicidade. Primeiro, o espanto. Depois, a urgência. Depois, a tristeza. E logo a seguir, quase sem intervalo, qualquer coisa mais pesada. Uma espécie de desespero. Uma espécie de luto antes sequer de se começar a fazer contas.


Começaram a ouvir-se choros pelas ruas.


Tudo aquilo que, dias antes, ou até minutos antes, tínhamos desvalorizado como exagero, transformou-se em acção. Como ninguém tinha visto nada assim, e como nada parecia indicar que aquilo fosse parar, começámos a preparar-nos para o que, poucas horas antes, ainda nos parecia impensável. Ou talvez apenas tentássemos preparar-nos para o pior, se é que isso é possível quando os acontecimentos já ultrapassaram a nossa imaginação.


A certa altura, sem que ninguém precisasse de o dizer, tornou-se evidente que aquilo não ia parar. E ficar ali, de braços caídos, apenas a olhar para a água em incredulidade, começou a tornar-se insuportável. A frustração crescia precisamente por não haver nada de concreto que pudéssemos fazer ali, naquele ponto. E talvez tenha sido isso, mais do que qualquer plano, que nos empurrou para o que veio a seguir. Precisávamos de agir. Nem que fosse pouco. Nem que fosse apenas para não ficarmos parados a ver a água tomar conta de tudo.

Decidimos ajudar o Tio João a preparar o armazém que ele tinha na rua de trás da marginal e que usava como base de apoio para os dois restaurantes, que naquela altura já estavam ambos debaixo de água.

Ao chegarmos ao armazém, notei que o Tio João ficou ligeiramente para trás. E foi aí que o vi, quase como se o peso em cima dos ombros lhe aumentasse a cada passo, parar de repente, baixar-se até ficar de cócoras e desmoronar-se.

O Tio João não é homem que eu alguma vez tenha conhecido a parar facilmente. É trabalhador, anda sempre de um lado para o outro, quase sempre com um sorriso. Tal como eu, tinha escolhido Alcácer para refazer a vida. Nos três anos até aquele dia, tinha trabalhado arduamente para erguer dois restaurantes que se tinham tornado parte vital da vida da marginal.


Eu próprio ainda estava a processar tudo, mas fui logo ter com ele, ajudei-o a levantar-se e levei-o para dentro. Puxei uma cadeira e disse-lhe para se sentar. Para respirar. Para se acalmar. Teria querido dizer-lhe que tudo ia ficar bem. Mas não fui capaz. Naquele momento, não conseguia afirmar-lhe aquilo de que eu próprio não tinha a certeza.


Não havia ali grande sabedoria. Havia apenas o instinto de o ajudar a manter-se de pé enquanto tudo à nossa volta continuava a mover-se na direcção contrária.


Para não o deixar afundar-se no que estava a acontecer, avançámos com a reorganização do espaço. E também porque, no fundo, fazer alguma coisa era a única forma que tínhamos de não ceder ao mesmo sentimento. Motivado pela nossa iniciativa, limpou as lágrimas, levantou-se e voltou ao trabalho. E isso, mais do que diminuir o Tio João, só confirmava quem ele é. Não havia fragilidade naquela reacção. Havia peso. Havia perda. Havia o choque de ver anos de esforço a serem engolidos diante dos olhos. Ainda assim, levantou-se. Começou a orientar as pessoas, a organizar o espaço, a decidir o que ia para onde. Lembro-me de pensar que talvez, sem se dar por isso, estivesse a tentar fazer o mesmo dentro da própria cabeça.


Reposicionámos tudo o que ainda podia ser salvo, pusemos as coisas mais alto, protegemos o que ainda não tinha sido alcançado. Há um momento, em situações destas, em que deixamos de pensar em grande. Já não se pensa em ruas, nem em estragos, nem em consequências. Pensa-se em objectos. Esta mesa. Aquelas caixas. Esta máquina. Mais uma coisa fora do alcance. Mais uma coisa que ganhou uns centímetros de segurança. Ao mesmo tempo, apenas alguns metros dali, no fundo da rua, víamos a água a avançar, devagar, mas sem hesitação, a aproximar-se lentamente do armazém. Não era uma subida que o olho acompanhasse em tempo real. Dava-se por ela de outra maneira. Íamos marcando referências na parede, em sinais, em pontos fixos da rua; de cinco em cinco, de dez em dez minutos, voltávamos a olhar para os mesmos sítios. Era assim que percebíamos que ia subindo.


Fazíamos o que estava ao nosso alcance, porque o resto já era demasiado grande para se dominar de uma só vez.


A certa altura, o ritmo abrandou. Ou talvez parecesse que sim, porque começávamos a ficar sem gestos úteis. Por essa altura, a água já tinha atingido níveis inéditos em Alcácer. Olhando para a marginal, já era possível antecipar o que aquilo significava, mesmo antes de a água baixar o suficiente para revelar a totalidade dos estragos.


Perda total.

Entretanto, a noite tinha caído por completo.


Já não havia muito mais a fazer senão ficar ali a olhar para a água e esperar que começasse a descer, embora, nessa altura, até essa esperança já parecesse frágil. Estávamos exaustos, ensopados, esmagados pelo que víamos, e já ninguém pensava com clareza. Foi então que, de repente, as luzes da vila se apagaram. Tudo ficou suspenso por instantes. Houve um sobressalto geral, uma apreensão súbita, como se o pior pudesse ainda estar para vir. Alguns temeram logo o pior. Outros começaram imediatamente a especular que o corte teria sido propositado, uma forma de obrigar as pessoas a prepararem-se com velas e luzes alternativas para um apagão que parecia já inevitável, embora ninguém soubesse por quanto tempo. Minutos depois, as luzes voltaram. Mas voltaram de outra maneira: já não como sinal de normalidade, apenas como uma trégua temporária.


Pouco depois, decidimos parar, pelo menos por um momento, e ir comer qualquer coisa quente. Não porque houvesse alguma coisa resolvida, nem porque sentíssemos que tínhamos direito a uma pausa, mas porque o corpo já estava a ceder e precisávamos, nem que fosse por pouco tempo, de calor, comida e uma cadeira debaixo de nós.


Qualquer coisa de normal no meio de algo que de normal já não tinha nada.


Já de volta à base, encontrou-nos um ambiente pesado. Ou talvez fôssemos nós a levá-lo connosco para dentro da sala. O jantar estava quente, pronto. Sentámo-nos à mesa e tentámos dar nome ao que tínhamos visto, mas era ainda tudo demasiado recente, demasiado cru, demasiado por fechar. Falávamos por fragmentos, às voltas em torno da mesma incredulidade, experimentando frases contra uma realidade que nenhum de nós tinha ainda conseguido absorver.


Na vila, a água continuava a subir.


À mesa falávamos do que poderia vir, ou do que se poderia fazer a seguir, embora não houvesse resposta. Ainda não havia plano. Não havia organização. Não havia estrutura. Havia apenas incerteza e a consciência crescente de que, pela manhã, Alcácer já não seria a mesma.


Ao fim de algum tempo, qualquer coisa mudou.


Talvez tenha sido a comida. Ou talvez tenha sido apenas o facto de, quando o corpo acalma e recompõe forças, a vontade de voltar também regressar com ele. Os pratos foram ficando vazios e, com eles, pareceu aliviar-se parte daquela primeira paralisia. Instalou-se uma recusa em aceitar a derrota. Levantámo-nos quase de rompante, voltámos a vestir os casacos e saímos porta fora outra vez. Se ainda havia alguma coisa para salvar, ou se simplesmente precisávamos de ser úteis a alguém, não saberia dizer ao certo. Sabíamos apenas que tínhamos de voltar.


Quando voltámos à rotunda, pouca coisa parecia ter mudado à primeira vista. A água tinha subido mais um pouco, mas não muito. O suficiente para levantar uma dúvida, não uma confiança: talvez estivesse a abrandar. Talvez não subisse muito mais, pelo menos por agora. Mas ninguém recebia essa hipótese sem cepticismo. Depois do que já tínhamos visto, ninguém se atrevia a acreditar demasiado depressa em boas notícias.


As pessoas estavam paradas em pequenos grupos, a contar perdas ou incapazes de as contar. A rotunda que sempre estivera seca estava agora completamente submersa. Mulheres choravam sem se esconder. Homens continham as lágrimas. Outros tinham já aquele olhar vazio de quem parece ter parado por dentro para não deixar entrar mais do que consegue suportar.


E, no meio de tudo, os telemóveis não paravam de tocar.


Esse som ficou comigo. Não alto ao ponto de dominar o silêncio, mas constante o suficiente para o ir rasgando, em tons diferentes conforme a distância a que chegava aos meus ouvidos. Por baixo dele havia aquele silêncio mais fundo que se abatera sobre a vila, interrompido apenas pelo som da água a correr sobre a rotunda e pelas ruas. E depois, aqui e ali, mais um telemóvel a cortar esse fundo. Mais uma chamada. Mais um pedido. Mais alguém a perguntar o que se passava noutro ponto da vila, ou a dizer que a água também já tinha chegado ali.


Foi então que uma dessas chamadas nos deu qualquer coisa concreta para fazer.


Um casal amigo, noutro ponto da cidade, precisava de ajuda para retirar e repor o que ainda não tinha sido alcançado pela água, que já tinha entrado em casa deles. Em grupo, fomos directos para lá e começámos a levantar tudo o que podíamos. Para o andar de cima, enquanto possível. Para cima de mesas, prateleiras e sofás, quando não era. Empilhávamos, mudávamos, íamos adivinhando. Era só isso que se podia fazer nessa altura: estimativas imperfeitas sobre até onde a água poderia chegar, e a esperança de estarmos a pensar uns centímetros acima da realidade.


Quando finalmente parámos e olhámos à nossa volta, a sala tinha-se tornado numa coisa estranha: uma desorganização organizada, um Tetris de móveis, brinquedos e electrodomésticos. Lá fora, o pátio do rés-do-chão já tinha desaparecido debaixo de água. Dentro de casa, a água começava a subir lentamente pelas escadas. A cheia já não era uma ameaça do lado de fora da porta. Já estava dentro de casa, a entrar.


Ainda assim, a sala continuava reconhecível como sala de estar. Continuava limpa. Continuava arrumada dentro do possível. Continuava claramente habitada por uma família com uma vida real ali dentro. Mas tudo tinha sido empurrado para cima e para dentro, reunido em cantos e sobre superfícies, numa tentativa desesperada de salvar o que ainda fosse possível salvar. Havia naquela imagem qualquer coisa de ordeiro e de aflito ao mesmo tempo.


E o que me marcou, enquanto pegávamos naquelas coisas uns com os outros, foi a intimidade do gesto. Não estávamos apenas a mudar mobília ou objectos. Estávamos a mover o peso privado da vida de alguém. As coisas que pouco dizem a quem está de fora de uma casa, mas que dizem tudo a quem vive dentro dela. As coisas carregadas de memória, de rotina, de afecto e do tempo ali vivido. Lembro-me de pensar nas nossas próprias coisas, em como aquilo que mais importa a uma família pareceria não valer nada aos olhos de outra pessoa e, no entanto, ser insubstituível para nós. A sensação foi quase avassaladora. Mas, naquele momento, não havia espaço para ficar dentro dela. A única coisa a fazer era transformá-la em acção e ajudar o melhor que conseguíssemos.


Essa imagem ficou-me.


Pouco depois, tal como se começara a temer antes, a rede eléctrica da cidade começou a ser desligada em várias zonas. Tinha de ser. Água e electricidade não convivem sem transformar o perigo em desastre. Uma a uma, as ruas foram ficando às escuras. Secções inteiras da vila mergulharam em breu.


Com as luzes apagadas, o silêncio adensou-se.


Era inquietante de uma forma difícil de explicar, a não ser a quem traz aquelas ruas dentro de si. Os lugares familiares tinham perdido não só a forma debaixo da água, mas também o som. A vila parecia recolher-se para dentro de si própria. O que, horas antes, ainda parecia ruidoso, reactivo, caótico, entrava agora noutra fase. Mais escura. Mais silenciosa. Mais pesada.


Foi então que percebemos que tínhamos de parar.


Não porque quiséssemos, mas porque já não havia nada de sensato a fazer no escuro. Tínhamos de tentar descansar, se é que isso fosse possível. Tínhamos de esperar pela luz da manhã. Tínhamos de esperar que a água, de alguma forma, nos desse tréguas.


Por isso voltámos para casa, agarrados à mesma esperança frágil: a de que, ao amanhecer, a cheia pudesse finalmente ter começado a descer, e a de que, com a manhã, viesse também o primeiro verdadeiro confronto com a realidade. O que se perdeu. O que ainda poderia ser recuperado. E, para lá disso, embora ainda parecesse impossivelmente distante, o primeiro pensamento sobre o que viria depois.


Reconstruir.


Voltar a trabalhar.

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