O Meu Amor Platónico com a Burocracia Portuguesa

Meus filhos,

O amor tem muitas formas — às vezes é profundo, outras vezes é complicado… e outras ainda é simplesmente absurdo. Hoje quero falar-vos de uma das relações mais longas e intensas da minha vida: o meu amor platónico com a burocracia portuguesa.

Não é o tipo de história de amor que se vê no cinema.

Não há música de fundo nem olhares apaixonados — só o zumbido das luzes fluorescentes e a frase inevitável: “O sistema está embaixo.”

Durante anos achei que a burocracia era um exercício de paciência. Mas aprendi que não — é arte performativa. E o melhor exemplo disso foi o episódio dos semáforos de Comporta.

Era verão. Daqueles em que o trânsito se estende desde a praia até Tróia e a paciência derrete mais depressa do que o gelo no copo. De repente, apareceu um semáforo novo à saída de Comporta — e nasceu o caos. Filas intermináveis, buzinas, gente a discutir, e ninguém a perceber porquê.

Decidi fazer o impensável: descobrir quem era o responsável.

Enviei uma carta educada, cívica, às câmaras municipais vizinhas, à GNR, à delegação distrital — e finalmente uma delas respondeu: “Não é da nossa competência, pertence às Infraestruturas de Portugal.”

Certo. Escrevi para as Infraestruturas, com todos em cópia, como manda a boa tradição portuguesa.

Dias depois, recebo resposta: afinal, não era com eles. Era precisamente com a câmara que me tinha acabado de enviar para lá.

Agradeci o esclarecimento e respondi, também com todos em cópia, que então voltaria a contactar a Câmara de Alcácer do Sal — visto que, segundo as Infraestruturas, afinal a responsabilidade era deles.

E foi aí que a magia aconteceu.

De repente, todos começaram a responder uns aos outros, com cópia para mim, num debate administrativo digno de telenovela. Eu limitei-me a sentar-me e apreciar o espetáculo. Big Brother: Função Pública Edition.

Até que um dia, sem aviso, voltei a passar pelo semáforo… e estava desligado. Nenhum comunicado, nenhuma explicação — só silêncio e eficiência disfarçada de confusão.

E é isto, meus filhos.

A burocracia pode não andar em linha reta, mas lá vai andando.

A lição é simples: às vezes, mudar as coisas não exige gritar mais alto, mas apenas pôr as pessoas certas em cópia e deixar que discutam entre si.

Por isso, quando tiverem de enfrentar o vosso próprio “semáforo” na vida, não percam o humor.

Sorriam, insistam e mantenham sempre todos em CC.


P.S. Os semáforos continuam desligados, por sinal.



Pai

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