O Sentimento que Ficou

A memória de quando eu ainda acreditava na magia — e o desejo de que vocês também a sintam.

Não é que esteja a pensar no Natal hoje pela primeira vez.

A verdade é que penso nele todos os anos — desde que vocês nasceram.

Talvez porque, em cada Natal, tento agarrar-me a um pouco daquilo que senti em criança —

e também porque, durante muito tempo, tentei negar o facto de ter partilhado esta data

com alguém que via o Natal de forma muito diferente da minha.

O Natal, para mim, sempre foi mais do que luzes ou presentes.

Era uma pausa.

Um calor no meio do tempo.

Uma sensação que se sentia no ar.

Hoje, olho à volta e vejo o quanto tudo mudou —

o quão comercial, rápido e vazio se tornou.

Tudo gira em torno de vender e consumir —

consumir, consumir, consumir.

E isso entristece-me.

Parte disso pode vir da idade —

de uma maturidade que nos faz ver o mundo de outra forma —

mas acredito que há mais do que isso.

Vivemos na era da informação,

e com ela veio também o ceticismo.

Vocês estão a crescer num mundo onde as respostas estão em todo o lado.

Onde tudo pode ser pesquisado, explicado, verificado.



E às vezes preocupo-me que, com tanto saber,

acreditar se torne mais difícil.



Têm mais acesso à informação do que eu alguma vez tive —

mas talvez menos espaço para a imaginação, a magia e o mistério.



E é por isso que sempre senti que era minha responsabilidade, como vosso pai,

tentar equilibrar isso.

Mostrar-vos que a magia não precisa de desaparecer —

apenas precisa de ser reinventada.

Quando tinha a vossa idade, vivíamos na África do Sul.

Das poucas memórias que guardo desses primeiros sete anos,

o Natal é, sem dúvida, a mais viva.

Foi lá que conheci o Pai Natal —

não como uma história, mas como um sentimento.

Lembro-me de como tudo era levado a sério.

Às vezes ele vinha durante a noite, enquanto todos dormiam,

e na manhã seguinte a árvore, antes vazia,

aparecia cheia de presentes e cor.

Outras vezes, durante o jantar, o pai dizia que tínhamos de sair —

“Vamos à caça do Natal”, dizia ele —

para ver se conseguíamos apanhar um vislumbre

do Pai Natal a voar no céu no seu trenó puxado por renas.


Quando voltávamos para dentro,

a mesma árvore silenciosa que lá estava antes do jantar

estava agora iluminada —

cheia de luz, presentes e decorações.



Esses pequenos rituais eram pura magia.

E por mais piegas que possa soar,

eram feitos de amor e emoção.

O Pai Natal não era um homem —

era um sentimento.



Hoje percebo que o que os meus pais me deram

foi muito mais do que brinquedos.

Deram-me uma memória de puro encantamento.



Mas a verdade é que não vos consegui dar o mesmo.

Com o tempo — e com a separação — essa oportunidade perdeu-se.

A logística do dia 24 com a mãe e do dia 25 comigo

acabou por roubar qualquer hipótese

de manter vivas essas tradições.

Porque o Natal não é apenas um dia —

é uma construção feita de pequenos momentos partilhados,

de rituais que dão vida à noite.

Escrevo-vos esta carta para que, um dia,

quando forem mais velhos e conseguirem compreender,

percebam que estas tradições não foram inventadas para enganar crianças.

Foram criadas para nos ensinar

que a vida ainda pode ter magia.

Que imaginar é tão importante quanto saber.

E que a criatividade —

essa capacidade de sonhar —

é um músculo,

e como qualquer músculo, precisa de ser exercitado.



Talvez não vos tenha conseguido dar o mesmo Natal que tive.

Talvez a magia não tenha chegado da mesma forma,

ou no mesmo momento.


Mas não acredito que ela tenha desaparecido.

Acredito que está à espera —

na forma como um dia irão criar os vossos próprios rituais,

nas tradições que vão inventar sem darem por isso,

nos momentos em que escolherem presença em vez de ruído,

imaginação em vez de certeza.

Se esta carta servir para alguma coisa,

espero que vos lembre que a magia não é algo que nos é dado —

é algo que se permite.

Algo que se protege.

Algo que se transmite.



E se um dia, daqui a muitos anos,

se virem a criar esse sentimento para alguém,

então esta carta terá cumprido o seu propósito.



Porque, no fundo,

o Natal nunca foi sobre acreditar no impossível.



Foi sobre aprender a acreditar —

no amor, no encantamento,

e na beleza silenciosa de estarmos juntos.



Feliz Natal

Pai

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