Parte I - Apanhados de Surpresa

Pois é, rapazes,

Ali estava eu — sentado no carro, com o motor a trabalhar, o aquecimento no máximo, o ar quente apontado aos pés. Eu estava descalço, a tentar aquecer e secar. No chão do lado do passageiro, pus as botas e as meias molhadas debaixo das saídas de ar, como se estivesse a estender roupa, na esperança de que aquele calor fizesse alguma coisa.

 

Lá fora já escurecia. Continuava a chover. E a vila não soava a ela própria — passos apressados, vozes a chamar, gente a ir e a vir com uma pressa que raramente se vê por aqui.

 Eu tinha acabado de tentar voltar ao prédio. Achei que a água ainda estava baixa o suficiente para eu conseguir entrar para apanhar uma mala com roupa, material de fotografia e o computador — os essenciais para passar uns dias fora de casa — e sair logo a seguir.

 

A rua tem uma ligeira inclinação só um pouco e, com a água turva, eu não conseguia medir a profundidade só a olhar. Ia lendo aquilo como podia — pelas paredes, pelos degraus e por meia dúzia de pessoas a atravessar com botas altas. E eu ali, de Timberlands, a convencer-me de que estava tudo controlado.

 

Até deixar de estar.

 

O primeiro aviso a sério não foi visual. Foi o frio. Aquele golpe de água gelada nos pés. Olhei para baixo e percebi que as botas estavam completamente submersas — a água já me ia a meio das canelas — e as calças começavam a encharcar. Foi aí que parei e decidi voltar para trás.

 

E foi assim que eu fui parar ali, a secar, a ganhar tempo, à espera que a água baixasse — com aquele pensamento parvo e insistente lá no fundo: só preciso de uma janela pequena para conseguir entrar. E, por baixo disso, outro pensamento que eu nem queria dizer em voz alta: vocês os dois. A sorte que esta semana, estavam com a mãe. Como é que um dia normal pode virar do avesso num instante.

 

Horas antes, mais ou menos às 4:20 da manhã, nada disto parecia inevitável.

 

Levantei-me da cama para beber um copo de água. E como, nos dias anteriores, tinham falado em cheias — avisos que não deram em nada —, olhei pela janela da sala quase por curiosidade.

 

Foi aí que reparei numa poça a formar-se no meio do estacionamento.

Não era nada de dramático. Foi mais: isto é novo…! O que me chamou a atenção foi de onde a água parecia vir — das grelhas de escoamento. Já chovia há dias, e eu nunca tinha visto poças a nascerem dali, mesmo no meio do parque, daquela maneira.

A maioria dos vizinhos já tinha estacionado noutro lado, ainda com medo dos avisos anteriores que nunca se confirmaram.

Por isso, só por precaução, fui mudar o carro para um sítio mais alto. Tranquilo. Sem pressa. Eu não achava que aquilo fosse inundar — achei apenas que era mais prudente mexer no carro agora do que arrepender-me depois.

 

Vesti-me e meti-me no carro à procura de um lugar. A maior parte dos lugares nas ruas de trás, mais elevadas, já estavam ocupados. Não devo ter demorado mais de vinte minutos.

 

Quando voltei, qual foi o meu espanto, ver o parque de estacionamento já estava completamente submerso.

 Em quatro anos a viver ali, nunca tinha visto aquilo acontecer. Nem uma vez.

 

Depois de uns minutos a ver o panorama à minha frente, subi e já não voltei para a cama. Liguei o computador e comecei a adiantar trabalho — responder a e-mails, adiantar pequenas tarefas do dia, aquelas coisas silenciosas que se fazem quando ainda está tudo a dormir. De vez em quando, ia espreitar a água.

 

Por volta das seis e meia, reparei que a água começou a baixar, precisamente quando a maré vazia começou. E esse pormenor é importante, porque fez parecer que o episódio tinha passado — como se tivesse sido uma coisa estranha, de madrugada, e pronto.

 

Depois das sete, a maioria das pessoas não fazia ideia do que tinha acontecido.

E o dia… o dia parecia normal.

As pessoas desvalorizaram. Fizeram piadas. Ouvia-se repetidamente – principalmente dos mais velhos – a conversa do “o mesmo tinha acontecido há trinta anos”. À hora de almoço. Os restaurantes prepararam almoços. As lojas abriram. A vida seguiu, como a vida segue em Alcácer. Acabado de sair do ginásio, a caminho de casa, ainda passei pelo Social, e estava tudo calmo — preparavam o almoço como em qualquer outro dia.

Nesse dia trabalhei de casa porque a estrada para a Herdade da Barrosinha é baixa e é das primeiras zonas a ficar submersa e cortada. Se a Barrosinha  de repente ficasse isolada, eu podia ficar preso lá — inesperadamente longe de casa. Longe da vila. E o que mais me incomodava não era o estúdio nem o material. Era a ideia de ficar longe de vocês se aquilo piorasse.

 

Por isso fiquei por perto.

 

E depois, já perto do fim da tarde, numa espécie de repetição do que tinha acontecido de manhã, levantei-me do computador só para descansar a vista. Voltei a olhar pela janela.

 

O estacionamento estava estranhamente vazio. E lá estava outra vez — o mesmo tipo de poça a formar-se.

 

Durante um segundo pensei: se calhar devia sair já com o saco e com o essencial, como tinha planeado.

 

Mas olhei para aquela poça e lembrei-me da manhã — a água subiu e depois desceu com a maré — e não entrei em alarme. Pensei: isto pode ser a minha oportunidade de registar isto como deve ser.

 

Agarrei na máquina fotografica e saí.

 

Mal sabia o que ia acabar por acontecer.

No princípio, ainda parecia uma coisa curiosa. Pessoas a olhar, a rir, a filmar com o telemóvel. A subida do rio ainda era “um espectáculo”, não era ainda nada dramático.

Depois a água começou a cortar partes da marginal.

 E eu fui escapando pelas ruas de trás, a seguir o que estava a acontecer. Fui na direcção do lado nascente do rio, para o Social, curioso se a água conseguia chegar aos negócios daquele lado, visto que estavam mais recuados do que os outros ao longo da marginal.

 

Foi a meio do caminho que senti a mudança.

 

Quanto mais me aproximava, mais o ambiente mudava. A curiosidade calma apertou, transformou-se em ansiedade. As pessoas começaram a andar com uma urgência que não é normal aqui — não em Alcácer, não no Alentejo. Passos mais rápidos. Frases mais curtas. Olhares a varrer.

 

Quando cheguei ao Social, a água já estava a tocar na esplanada. O pessoal dos restaurantes andavam numa correria, a levantar o que podiam a pôr tudo mais alto — cadeiras, caixas, o que fosse — a tentar ganhar segundos, a tentar ficar à frente da água.

 

No caminho de volta para o meu lado da marginal, pelas ruas de trás, cruzei-me com o Tio João a meio —Uma pessoa que conhecem bem, sempre bem-disposto, sempre calmo, aquele sorriso fácil.

 

Nesse dia não vinha com ele.

 

Vinha ao telefone, a andar depressa e trazia uma cara diferente — séria, inquieta, com urgência. Quando me viu, desligou e disse-me que a água já tinha começado a entrar na esplanada do Sal no Rio. E isso já era mais preocupante porque o alpendre está a cerca de um metro do chão. Ou seja: aquilo já não tinha nada a ver com o que eu tinha visto de manhã.

 

Separámo-nos e, mas ele ainda se virou para trás e disse uma coisa que me ficou:

 

Que eu provavelmente já não ia conseguir entrar no meu prédio.

 

Acelerei o passo. Ainda assim, parei algumas vezes — a máquina já estava na mão e a vila estava a mudar à minha frente.

 

E foi então que cheguei àquela praça entre a câmara municipal e as finanças, onde está a estátua do Pedro Nunes, a olhar para o rio e para a ponte pedonal. A água já chegava à pedra debaixo dos pés dele. O rio, no seu leito, corria mais depressa do que o normal.

 Enquadrei a fotografia — e, no exacto momento em que o fiz, passaram miúdos a correr a gritar: “A mesa de matraquilhos!! Agarra a mesa de matraquilhos!”

 

Olhei para o rio e, ali à minha frente, a descer com a corrente, no meio do rio, passava uma mesa de matraquilhos virada de pernas para o ar. Atrás, mais destroços. Coisas estranhas. Coisas que não deviam estar a passar ali.

 

E foi aí que a realização se afirmou: desta vez não era “um bocadinho de água”. Isto estava a crescer. Isto estava a ficar sério.

Quando cheguei à rua de trás do meu prédio, a água já lá estava. Pessoas das casas daquela rua corriam de um lado para o outro, a tentar salvar o que conseguiam.

E é aí que a história volta ao início.

Ali estava eu outra vez. No carro. Pés descalços debaixo do ar quente. As botas ao lado a secar. À espera que a água baixasse, como tinha baixado de manhã — na esperança de que me desse uma pequena oportunidade para entrar e ir buscar o que precisava.

Cerca de uma hora depois, ligou-me o Tio Bernardo. Perguntou onde eu estava e como estavam as coisas do meu lado. Disse-me que ia entrar na vila para se encontrar com o Tio João no Social.

Expliquei-lhe a minha situação, o que se estava a passar, e disse-lhe que a água já devia estar a baixar — que eu ia tentar chegar ao prédio outra vez e depois ia ter com eles ao Social.

E assim que desliguei, enfiei os pés nas meias ainda húmidas, mas quentes, calcei as botas e pus-me novamente a caminho do prédio.

 

Quanto mais me aproximava, mais frenéticas estavam as pessoas— a andar depressa, a carregar coisas, a correr de um lado para o outro.

 

Cheguei à rua de trás, confiante na minha missão.

 

Quando parei imediatamente na nova margem da água.

 

Fiquei só a olhar, em silêncio, para o fundo da rua. A água não só não tinha baixado — estava mais alta do que antes.

 

E, pior ainda: continuava a subir.

 

Fiquei ali um instante, a realizar o que estava a ver. Depois virei costas e comecei a caminhar para o Social, porque a minha missão pessoal não ia acontecer.

Não naquela noite….

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